• PlantaConsciência

Série Estresse em Plantas – Parte IV: O ozônio e seus efeitos nas plantas

Alguma vez na vida você já deve ter ouvido falar da camada de ozônio e, infelizmente, sobre a destruição dela em consequência da produção excessiva de poluentes relacionados a nossa vida moderna (WWF). Além disso, o ozônio faz parte da composição dos gases de efeito estufa, crucial para a manutenção da vida na Terra.

Quando está no lugar correto, o ozônio é vital. Porém vamos pensar no exemplo do aquecimento global, um problema real que tem trazido, entre outras consequências, a alteração no conteúdo dos gases do efeito estufa (Papazian et al 2016).


A queima de combustíveis fósseis liberam compostos que reagem entre si e formam o ozônio troposférico (O3), um poluente atmosférico que afeta células animais e vegetais. Por isso, ele é pode ser incluído como um dos fatores de estresses abióticos que temos apresentado nessa série especial sobre estresse em plantas.


Porque a presença do ozônio é preocupante

Figura 1. Efeito do ozônio na folha do tulipeiro (Liriodendron tulipfera), uma árvore nativa da América do Norte. Acima a folha saudável e abaixo com injúrias devido à presença de O3 (National Park Service).

Nas plantas ele pode afetar a fotossíntese, causando problemas no crescimento e desenvolvimento. Na presença de altas concentrações desse gás, as injúrias nos tecidos vegetais podem ser visíveis (Figura 1).


Quando se fala em culturas de interesse agronômico, o ozônio pode ser responsável pela perda de biomassa e consequentemente, a perda de produtividade de uma cultura (Duque et al 2019). Estudos experimentais realizados desde os anos 2000 na região do Mediterrâneo mostraram que o O3 afeta diferentes culturas de alto valor econômico, como o trigo, o milho, a uva e o tomate (Fumagalli et al 2001).


Recentemente também foram estudados os efeitos do O3 na cana-de-açúcar, mostrando o impacto negativo na cultura e possíveis variações de sensibilidade ao gás dependendo da cultivar (Moura et al 2018b).


Por ser um gás, o O3 entra na folha através dos estômatos, da mesma forma que o CO2. Na câmara subestomática, o ozônio forma espécies reativas de oxigênio (EROs) e reage com diversos compostos presentes no interior e exterior das células, podendo causar a morte celular (Figura 2).

Figura 2. O ozônio adentra a folha pelo estômato e na cavidade estomática ele provoca a formação de espécies reativas de oxigênio (EROs), causando danos as células do mesofilo (hexágono).

Por isso, o ozônio causa alterações no metabolismo das plantas, desde o metabolismo primário até o secundário, uma vez que a planta usa mecanismos diversos para se defender.


O ozônio é um problema no Brasil?

Os efeitos do ozônio na vegetação têm sido amplamente estudados e supervisionados na América do Norte e na Europa. Infelizmente, no Brasil os níveis de ozônio também estão elevados e os mesmos sintomas encontrados em plantas de outros continentes também estão sendo visualizados por aqui. Algumas plantas já tem sido usadas como bioindicadores da presença do O3 em excesso na nossa atmosfera.

O pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha), por exemplo, é uma árvore nativa da flora brasileira e já foi verificado como um bioindicador da presença do ozônio, pois foi identificado que ela apresenta no campo as mesmas respostas obtidas em laboratório. As injúrias visíveis são consequência das EROs geradas pelo ozônio (Figura 3).

Figura 3. Pau-jacaré (Piptadenia gonoacantha) e um folíolo com sintomas de resposta ao ozônio (adaptado de Moura et al 2018a; Milena Sartori - CC)

Existem ainda muitas outras plantas presentes no Brasil que já foram avaliadas e indicam a presença do ozônio em nossa atmosfera. Por isso, não devemos neglicenciar o que as plantas estão nos dizendo a respeito dos efeitos deste estresse em suas células, pois o ozônio também afeta células animais. Logo, altos níveis de ozônio podem ameaçar nossa biodiversidade, principalmente com o avanço pouco controlado das mudanças climáticas.


Texto escrito por Márcia Gonçalves Dias.


Referências

DUQUE, L.; POELMAN, E. H.; STEFFAN-DEWENTER, I. Plant-mediated effects of ozone on herbivores depend on exposure duration and temperature. Scientific Reports, v. 9, n. 1, p. 1-11, 2019.

FUMAGALLI, I. et al. Evidence of ozone-induced adverse effects on crops in the Mediterranean region. Atmospheric Environment, v. 35, n. 14, p. 2583-2587, 2001.

MOURA, B. B. et al. Ozone affects leaf physiology and causes injury to foliage of native tree species from the tropical Atlantic Forest of southern Brazil. Science of The Total Environment, v. 610, p. 912-925, 2018a.

MOURA, B. B. et al. Exposure-and flux-based assessment of ozone risk to sugarcane plants. Atmospheric Environment, v. 176, p. 252-260, 2018b.

National Park Service. https://www.nps.gov/subjects/air/nature-ozone.htm.

PAPAZIAN, S. et al. Central metabolic responses to ozone and herbivory affect photosynthesis and stomatal closure. Plant Physiology, v. 172, n. 3, p. 2057-2078, 2016.

WWF-Brasil. O que é a camada de ozônio? Disponível em <https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/camada_ozonio/>


#estresseabiotico #plantstress #ozônio #ozone #airpollution #estresseemplantas #mudançasclimáticas #climatechange



46 visualizações
 

©2019 por PlantaconsCiência. Orgulhosamente criado com Wix.com