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Plantas Sempre Vivas

Atualizado: Jun 23


Sempre vivas, mesmo depois de mortas!


As plantas Sempre vivas são assim chamadas devido a seus escapos (tipo de caule) e inflorescências (conjunto de flores pequenas) manterem sua aparência e estrutura depois de coletadas, podendo durar por muitos anos (Figura 1) . Além das flores, outras partes como frutos e caules também são utilizados, a exemplo do caule do Capim dourado (Syngonanthus nitens). No entanto, as flores são as partes que mais chamam a atenção devido diversidade de formatos e cores; e vale lembrar que muitas dessas colorações se devem ao tingimento com corantes artificiais para comercialização.

Figura 1 - Sempre vivas em Minas Gerais. Créditos de imagem: Leandro Couri/EM/D.A Press.


A durabilidade destas plantas depois de secas (mortas) ainda é intrigante, e por esta razão, são muito apreciadas para produção de artesanato e decoração de ambientes. Durante o processo evolutivo das plantas, estas espécies foram se adaptando às condições do ambiente como pouca água, calor e ventos excessivos do Cerrado. Corredor (2016) estudou a anatomia dos órgãos de duas espécies de Sempre vivas da família Eriocaulaceae e verificou a presença de muitas camadas de fibras (tecido esclerenquimático) e células epidérmicas de paredes espessadas que conferem rigidez em raízes, caules e folhas (Figura 2). Essas características anatômicas são respostas ao ambiente em que estas plantas vivem e que as tornam resistentes aos processos de decomposição depois de colhidas.

Figura 2 - Corte transversal da folha de Espeta Nariz (Rhynchospora globosa) evidenciando a presença de fibras com coloração rosa/avermelhada (aumento de 10 x). (UFVJM). Fonte: http://semprevivasufvjmlab4.blogspot.com. Autora da imagem: Mariana Generoso

Ocorrência das espécies e extrativismo


As Sempre vivas são representadas por diversas espécies endêmicas pertencentes às famílias (Eriocaulaceae, Poaceae, Xyridaceae, Cyperaceae e Rapateaceae) típicas no Bioma Cerrado, mais especificamente nos campos rupestres dos Estados de Minas Gerais, Bahia e Goiás (Giuliette et al., 1996) (Figura 2). A região da Cadeia do Espinhaço-MG abriga cerca de 80% de todas as espécies de Sempre vivas do Brasil e cerca de 70% das espécies do planeta (Albuquerque, 2013), por isso é tradicionalmente conhecida pelo extrativismo destas plantas.

Ao longo do tempo estas espécies passaram a ser ameaçadas de extinção devido ao extrativismo, pois muitas comunidades locais das regiões de distribuição destas plantas dependem da coleta e comercialização destas plantas para seu sustento. Por muito tempo, as coletas foram realizadas de maneira indiscriminada e incorreta, sem respeitar os preceitos ecológicos e de manejo. Como exemplo, a coleta das flores antes da formação dos frutos afeta a reprodução por sementes (Giulietti et al., 1988; Sempre vivas, UFVJM). Associado a estes fatores, ocorreu o aumento da demanda destas flores no mercado interno brasileiro e também para exportação.


Preservação das espécies


Diante da ameaça de extinção e importância econômica destas espécies, vários trabalhos vêm sendo desenvolvidos por órgãos governamentais, de pesquisa e Universidades. Um dos projetos intitulado “Plano de Ação Nacional para Conservação das Eriocaulaceae do Brasil – PAN Sempre Vivas” teve como objetivo geral promover a manutenção da diversidade das Euricaulaceae através da diminuição da perda de habitats e outras ameaças, especialmente nas áreas de alto endemismo (2012-2017). Neste projeto foram realizados treinamentos no sentido de conscientizar e orientar os trabalhadores para coleta e manejo corretos, como o momento ideal da colheita, permanência de parte das flores no campo para disseminação de sementes e forma correta de retirada das hastes para evitar o arranquio das plantas.

Em 2020, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), concedeu o selo ao sistema agrícola dos apanhadores (as) de flores sempre-viva o selo de Sistema Agrícola Tradicional de Importância Mundial (Sipam) (EMATER – MG, 2020), o qual é concedido a comunidades tradicionais que preservam técnicas seculares de manejo da terra e desenvolvem em seu território uma relação sustentável com a natureza (Figura 3).

Figura 3 - Agricultor realizando coleta de Sempre vivas na Serra do Espinhaço, Minas Gerais. Créditos de imagem: EMATER- MG.


Outras medidas podem contribuir para redução do extrativismo e sustentabilidade de sistemas. Destacamos os trabalhos de pesquisa de Mestrado de Albuquerque (2013) com desenvolvimento de formas de propagação com cultura de tecidos e por Moreira (2010) com manejo para plantios comerciais de espécies de Sempre vivas. Os consumidores também podem contribuir para preservação dessas espécies através da realização de coletas racionais e verificação da procedência das flores no momento da compra, pois existem associações (coletores e comercializadores) que realizam este trabalho de forma consciente e correta.


Espécies endêmicas: são espécies que ocorrem exclusivamente em uma determinada região geográfica.



Referências

Albuquerque, M. M. S. Micropropagação e conservação in vitro de “sempre vivas” nativas da Chapada Diamantina – BA. Dissertação (Mestrado em Recursos Genéticos Vegetais) - Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana-BA, 2013.


Corredor, B. A. D. Anatomia de espécies brasileiras de Eriocaulaceae: Comanthera e Syngonanthus. Doutorado (Tese em Biologia Vegetal) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Rio Claro, 2016.


Giulietti, A. M.; Wanderley, M. G. L.; Longhi-Wagner,H. M.; Pirani, J. R.; Parra, L. R. Estudos em "sempre-vivas": taxonomia com ênfase nas espécies de Minas Gerais, Brasil. Acta Botânica Brasileira, 10 (2), 1996.


EMATER. Conheça o modo de vida dos apanhadores de flores sempre-vivas em minas gerais. Disponível em: < https://www.emater.mg.gov.br/portal.do/site-noticias/conheca-o-modo-de-vida-dos-apanhadores-de-flores-sempre-vivas-em-minas-gerais-/?flagweb=novosite_pagina_interna&id=24843> Acesso em: 15 junho de 2021.


Moreira, F.C. Avaliação de sistemas de cultivo das sempre vivas (Bong.) L.R. Parra & Giul. E (Körn) L.R. Parra & Giul. Dissertação (Mestrado em Produção Vegetal) - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Diamantina-MG, 2010.


Plano de Ação Nacional para a Conservação das Sempre-Vivas (PAN Sempre vivas). Disponível em: <https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos> Acesso em: 15 junho de 2021.


Sempre-vivas. Blog de divulgação. Disponível em: < http://semprevivasufvjmlab4.blogspot.com/ Acesso em: 14 junho de 2021.


Texto escrito por: Magda Andréia Tessmer



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