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Coleta de Água de Cima para Baixo

Encontrar água no deserto é uma tarefa relativamente fácil para o musgo Syntrichia caninervis. Ao contrário de muitas plantas que vivem neste ambiente, esse musgo utiliza suas folhas – não as raízes – na absorção de água. Os rizoides (estruturas semelhantes a raízes) servem apenas para fixar a planta no solo. O segredo para a sobrevivência desta planta é a presença de uma fibra conhecida por aresta ou pelo, que é formada na ponta da folha. Essa estrutura de aproximadamente 0,5 a 2 mm de comprimento tem a capacidade de captar água proveniente de eventos de precipitação como, orvalho, neblina e chuva. O formato cônico destes pelos e a presença de nano e micro-sulcos e farpas interagem com a água em diferentes escalas de tamanho facilitando o processo de absorção. Na ausência de nevoeiros ou chuva, por exemplo, apenas nano-sulcos captam água a medida que a atmosfera atinge o ponto de orvalho. Uma vez que há umidade o suficiente, as moléculas de água se acumulam nos nano-sulcos e, a ação capilar causada pela tensão superficial da água direciona as gotas em direção à base da folha. Quando gotas maiores proveniente de neblina ou chuva estão disponíveis, micro-sulcos e farpas participam do processo de captação da água através dos pelos. Neste caso, o transporte de água para as folhas só ocorre quando as gotas se coalescem o suficiente para se moverem ao longo dos pelos em velocidade relativamente alta, processo este facilitado pelo formato cônico da estrutura. Após água ser movida para as folhas, o musgo é reidratado e os pelos voltam a recolher mais aglomerados de água. A presença destas estruturas em S. caninervis é um exemplo de como briófitas se adaptam a ambientes extremos conferindo a elas vantagens competitivas em relação a outras plantas.


Figura 1. S. caninervis no Deserto de Gurbantünggüt na China (a) e na Grande Bacia, EUA (b). Musgo desidratado (c) e reidratado (d). Superfície da aresta do musgo (e – g). Imagem da superfície da aresta do musgo, mostrando micro (triângulo amarelo) e nanofissuras (triângulo verde) (h). Secção transversal da aresta mostrando as fissuras (i, j).


Referência

Pan Z., Pitt W.G., Zhang Y., Wu N., Tao Y., Truscott. The upside-down water collection system of Syntrichia caninervis. Nature Plants, v.2, p.1-5, 2016.


Texto escrito por Fábia Barbosa da Silva

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