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Araucária no Natal: não use essa decoração!

Sempre que pensamos no Natal, um dos primeiros símbolos que nos vem a mente é a árvore de Natal bem enfeitada.


A origem do uso da árvore de Natal é controversa, mas sabe-se que este símbolo foi herdado de religiões pagãs da antiguidade, quando árvores eram utilizadas para enfeitar os templos e ter espécies com folhas permanentes e verdes dentro de casa eram associadas à fertilidade e a prosperidade. Ao longo do tempo e durante o estabelecimento do movimento do cristianismo na Europa, a árvore adornada passou a ser integrada dos costumes cristãos para celebrar o nascimento de Jesus.


A partir do século XVI, a árvore de Natal foi inserida no interior das residências e a tradição se espalhou por todo o mundo. Inicialmente decoradas com maçãs, nozes, algodão e velas, evoluíram para luzes artificiais, estrelas e bolas de diferentes cores e formatos. No Brasil, principalmente na região Sul, era tradição famílias fazerem o corte de pinheiros (Araucária) de pequeno porte para montagem da árvore de Natal.


O que você conhece sobre Araucária?

São conhecidos cerca de 19 gêneros de Araucária, encontrados inteiramente no Hemisfério Sul numa distribuição geográfica bastante restrita (Mastroberti, 2003). Estes gêneros pertencem as Gimnospermas, grupo de plantas que não possuem flores verdadeiras e nem frutos envolvendo as sementes.


A Araucaria angustifolia, também chamada de pinheiro brasileiro ou pinheiro do Paraná, é nativa do Brasil, Argentina e Paraguai. No Brasil pode ser encontrada em todos os estados do Sul e nas regiões de serra de Mata Atlântica em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo, onde ocorrem as florestas ombrófilas mistas (Martinelli e Morais, 2013).

Floresta ombrófila mista, também chamada de mata de Araucária, localizada no Parque Estadual do Caracol (RS). Foto: Eduardo P. Fernandez, Livro Vermelho da Flora do Brasil.


A araucária é uma espécie perenifólia que pode viver de 200 a 300 anos. Possui porte de 20 m a 25 m de altura, com copa cônica nas árvores mais jovens e em forma de taça nas árvores adultas. É dióica, ou seja, as estruturas reprodutivas masculinas e femininas são produzidas em árvores distintas. A estrutura masculina é formada por cones (primeira imagem abaixo) que liberam o pólen, o qual é disperso pelo vento e transportado até a estrutura feminina. Na estrutura feminina, denominada de estróbilo, são formadas as sementes carnosas que permanecem agrupadas numa estrutura globular (segunda imagem). Quando maduras, são chamadas de pinha (Wendling e Zanette, 2017).

Você já comeu pinhão?

As sementes, são conhecidas popularmente como pinhão, ricas em reservas como amido, proteínas, fibras, cálcio, fósforo, ferro e vitaminas (Wendling e Zanette, 2017). As pinhas são coletadas no solo após sua queda quanto maduras ou prematuramente pela subida nas árvores. São comercializadas entre os meses de abril a agosto nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, sendo consumidas como aperitivo e também em pratos típicos.

Por esta razão, o pinhão possui importante papel econômico e social para famílias de baixa renda e pequenos agricultores que obtém renda do extrativismo sustentável em povoamentos naturais da espécie.

Além disso, espécie também apresenta importância ecológica, pois as sementes servem de alimento no inverno para aves (gralha amarela e azul) e mamíferos (cutia) que vivem nas florestas com araucária. Esta relação é primordial para manutenção da espécie, pois assim ocorre a dispersão das sementes para outras regiões.


Você sabia que ela é uma espécie em perigo de extinção?

A Araucaria angustifolia sofreu uma grande redução populacional no último século, levando a espécie a ser incluída no Livro Vermelho da Flora do Brasil na classificação “em perigo” (EN) e na Lista vermelha da IUCN, como “criticamente em perigo” (CR). Isso significa que ela está a dois passos do último nível, que refere-se a extinção.

A primeira imagem mostra a situação da Araucaria angustifolia como “Em perigo - EN” no Livro Vermelho da Flora do Brasil. Na segunda imagem a classificação da Lista Vermelha da IUCN de espécies ameaçadas mostra a mesma espécie "criticamente em perigo".


Esse problema originou-se principalmente da exploração desordenada da espécie, dada a qualidade de sua madeira para produção de móveis e celulose (Kersten et al. 2015). Atualmente, esta exploração ainda acontece, mesmo que agora a espécie seja protegida por lei (Resolução 278/01 do CONAMA, a qual suspende o corte e a exploração de espécies ameaçadas de extinção da Mata Atlântica). Além disso, a construção de hidrelétricas, a expansão da pecuária extensiva e o cultivo de monoculturas também são responsáveis pelo desaparecimento de remanescentes de mata de Araucária (Narvaes et al. 2005, Martinelli e Moraes 2013).


Pelo fato da araucária ser protegida por lei, seu corte e comercialização como árvore de Natal também foi extinta. Em contrapartida, vem sendo substituída por árvores artificiais e por espécies de ciprestes ornamentais comerciais. Logo, a decoração de Natal está salva sem perder sua magia!


Texto escrito por Magda Tessmer e Márcia Dias.


Referências

Kersten, R. A.; Borgo, M.; Galvão, F. 2015. Floresta Ombrófila Mista: aspectos fitogeográficos, ecológicos e métodos de estudo. In: Eisenlohr, P. V. Fitossociologia no Brasil: métodos e estudos de caso, V (2), 1ª Ed., Editora UFV.

Martinelli, G.; Moraes, M.A. 2013. Livro vermelho da flora do Brasil. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Mastroberti, A. A. 2003. Morfologia e Citologia das células compartimentadas em Araucaria angustifolia (BERT.) O. KTZE. (Araucariaceae). Tese de Doutorado apresentada para o Dep. de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Narvaes, I. D. S., Brena, D. A., & Longhi, S. J. (2005). Estrutura da regeneração natural em floresta ombrófila mista na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, RS. Ciência Florestal, 15(4), 331-342.

Wendling, I.; Zanette, F. EditoresAraucária: particularidades, propagação e manejo de plantios. /Ivar Wendling, Flávio Zanette, editores técnicos. – Brasília, DF : Embrapa, 2017.

http://www.fundacaogrupoboticario.org.br/pt/acontece-por-aqui/Paginas/sem-estrategias-de-conservacao-araucaria-deve-ser-extinta-em-2070-diz-estudo.aspx


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