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Anacardiaceae: uma família produtora de resinas e grande diversidade de estruturas secretoras


Quem nunca ouviu falar do caju, pistache ou da pimenta rosa? Todas essas espécies possuem algo em comum, pertecem à família Anacardiaceae (Figura 1). Esta família é altamente conhecida pela produção de frutos comestíveis, como os listados acima, mas também pelo valor econômico de sua madeira e pela produção de substâncias utilizadas na indústria e na cosmetologia.

Figura 1. Espécies da família Anacardiaceae. (A) Spondias purpurea – seriguela, (B) Anacardium occidentale – cajueiro, (C) Mangifera indica – mangueira e (D) Schinus terebinthifolia – pimenta-rosa.


Uma dessas substâncias é a resina, um misto de terpenos, que pode vir associado ou não a outros compostos. Até o momento é conhecido que todas as espécies da família Anacardiaceae produzem e armazenam resinas em uma estrutura especializada denominada de canal (Figura 2). O que não se sabia até pouco tempo, é que esses canais podem produzir diferentes substâncias dependendo de onde estão localizados no corpo da planta. Recentemente publicamos os resultados de nossa pesquisa a esse respeito, conseguindo assim identificar três grandes tipos de canais, dependendo do que produzem e armazenam: canais de resina sensu stricto, produzem apenas resinas de natureza terpênica, canais de resina sensu lato, produzem resinas terpênicas misturadas à outros compostos, como polissacarídeos e compostos fenólicos; e os canais de goma, que são especializados apenas na produção de substâncias de natureza hidrofílica (Tölke et al., 2021).

O mais curioso é que se pensava que os canais de goma apareciam somente após injúrias causadas ao órgão da planta onde estavam situados, mas conseguimos comprovar que não, que eles podem ser facilmente encontrados na região medular de caules jovens de espécies de Anacardiaceae. Acredita-se que estas substâncias tenham papel fundamental na adaptação dessas espécies à diferentes tipos de hábitats, bem como na sua defesa química, livrando-as da ação de insetos que se alimentam de suas folhas e/ou flores, ou utilizam suas flores como local de reprodução.

Figura 2. (A) Canais em flores de Tapirira guianensis e (B) Canais em frutos de Lithrea molleoides


Os canais não são as únicas estruturas responsáveis pela produção de substâncias diversas da família. Ao longo da nossa jornada já identificamos e documentamos muitas outras estruturas secretoras especializadas e importantes do ponto de vista ecológico e sistemático. Uma dessas estruturas são os osmóforos, especializados na produção de perfumes nas flores. Identificamos pela primeira vez a presença de osmóforos em espécies relativamente comuns de Anacardiaceae, a manga (Mangifera indica) e o cajuzinho do cerrado (Anacardium humile). Esses perfumes são produzidos principalmente para atrair polinizadores em potencial para as flores, aumentando assim o sucesso reprodutivo dessas espécies.

Acreditamos que muitas outras espécies da família possam ter osmóforos em suas flores, porém não é tarefa fácil encontrá-los e comprovar a produção de terpenos, pois na maioria das vezes eles não estão formando uma estrutura diferenciada nas flores. Ocorrem na maioria das vezes nas pétalas e chegam a ser confundidos com células comuns da epiderme dessas pétalas.


Os coléteres também são estruturas secretoras importantes na família, identificados até o momento em poucas espécies. Essas estruturas secretoras produzem susbtâncias mucilaginosas que protegem a região meristemática floral e caulinar, chegam a ser importantes também para a sistemática. Em Anacardiaceae, os coléteres são representados por tricomas secretores, aqueles pêlos que recobrem os órgãos das plantas de modo geral, um tipo muito raro entre as angiospermas. Aqui também conseguimos perceber que na família, os coléteres também produzem muitas outras substâncias, além das mucilagens.

Também não podemos deixar de mencionar os nectários florais que possuem diferentes tamanhos e formas na família Anacardiaceae. Os nectários são de longe as estruturas secretoras florais mais importantes para os polinizadores, uma vez que são estruturas especializadas na produção de néctar, um composto açucarado que serve de recompensa para os insetos polinizadores, em sua maioria abelhas. Curiosamente aqui também foram identificadas diversas outras classes de compostos além do néctar, mostrando que a família Anacardiaceae possui aparato celular especializado na produção dessas substâncias, que de alguma forma permitiram a sua diversificação e a colonização de ambientes variados.


Na referências podem ser consultados artigos com as descobertas sobre a família Anacardiaceae. Acreditamos que ainda há muito a se descobrir em relação às estruturas secretoras da família, já que esta é muito diversa e poucas espécies foram estudadas com este objetivo.



Texto escrito por Elisabeth E. A. Dantas Tölke

Divulgação de pesquisas realizadas por mulheres em homenagem ao dia Internacional da Mulher.



Referências


Tölke, E.D.; Lacchia, A.P.S.; Lima, E.A.; Demarco, D.; Ascensão, L.; Carmello-Guerreiro, S.M. Secretory ducts in Anacardiaceae revisited: Updated concepts and new findings based on histochemical evidence. South African Journal of Botany, v. 138, p. 394-405, 2021.


Tolke, E.D.; Bachelier, J.B.; Lima, E.A.; Ferreira, M.J.P.; Demarco, D.; Carmello-Guerreiro, S.M. Osmophores and floral fragrance in Anacardium humile and Mangifera indica (Anacardiaceae): an overlooked secretory structure in Sapindales. AoB Plants, v. 10, ply062, 2018.


Tölke, E.D.; Galetto, L.; Machado, S.R.; Lacchia, A.P.S.; Carmello-Guerreiro, S.M. Diversity of floral nectary secretions and structure, and implications for their evolution in Anacardiaceae. Botanical Journal of the Linnean Society, v. 187, p. 209–231, 2018.


Tölke, E.D.; Lacchia, A.P.S.; Demarco, D.; Carmello-Guerreiro, S.M. Pericarp ontogeny of Tapirira guianensis Aubl. (Anacardiaceae) reveals a secretory endocarp in young stage. Acta Botanica Brasilica, v. 31, p. 319–329, 2017.


Lacchia, A.P.S.; Tolke, E.D.; Carmello-Guerreiro, S.M.; Ascensão, L.; Demarco, D. Foliar colleters in Anacardiaceae: first report for the family. Botany, v. 94, p. 337–346, 2016.


Tölke, E.D.; Galetto, L.; Machado, S.R.; Lacchia, A.P.S.; Carmello-Guerreiro, S.M. Stages of development of the floral secretory disk in Tapirira guianensis Aubl. a dioecious species. Botanical Journal of the Linnean Society, v. 179, p. 533–544, 2015.



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