• PlantaConsciência

A origem da rolha

Atualizado: Fev 6

Desde a antiguidade, um material leve e versátil era utilizado para vedar recipientes de barro ou cerâmica usados para armazenar água e vinho. Ao longo do tempo, os recipientes evoluíram para garrafas de vidro e este mesmo material, denominado de rolha, continua sendo utilizado para vedar e conservar vinhos e espumantes.

Qual é a origem deste material usado para confecção das rolhas?

As rolhas são produzidas da cortiça formada no caule da espécie Quercus suber, conhecida popularmente como Sobreiro. Portugal (713.000 ha) e Espanha (550.000 ha) possuem mais de 50% da área mundial de florestas de Sobreiro e são os maiores produtores de rolhas. Outros países como França, Itália e norte da África também apresentam a espécie em seus territórios (Oliveira e Costa, 2012).


Como é formada a cortiça?

Leite e Pereira (2017) realizaram estudo de revisão sobre a formação da cortiça em espécies arbóreas com potencial para formação de cortiça. Árvores lenhosas apresentam crescimento radial do caule (aumento do diâmetro) resultante da atividade de dois meristemas: o câmbio vascular e o felogênio.

O câmbio está presente internamente no caule e produz células do xilema secundário voltado para o lado interno e do floema secundário voltado para o lado externo do órgão, com camadas funcionais e outras não funcionais (fig. 1A). Com o início da produção destes tecidos vasculares secundários, ocorre aumento contínuo do diâmetro do caule e a epiderme é substituída pela periderme, outro tecido secundário formado para acompanhar a expansão do caule.

A periderme é formada a partir de células de felogênio, que produzem a feloderme para o lado interno e o felema (súber ou cortiça) para o lado externo do caule (fig. 1A). O felogênio é reativado por toda a vida das plantas de Sobreiro, enquanto que as células do súber ou cortiça morrem, devido a deposição de suberina na parede celular primária e perda do seu protoplasma. Quando uma periderme cessa sua atividade funcional e morre, esta é substituída por uma nova periderme em funcionamento internamente. Desta forma, sucessivas peridermes inativas são intercaladas no floema secundário inativo, formando um conjunto de tecidos mortos denominado de ritidoma (fig. 1B). Existem espécies corticeiras quem formam somente periderme e outras espécies que formam ritidoma.

A casca do caule compreende os tecidos situados externamente ao câmbio vascular (floema funcional e não funcional, a periderme ou ritidoma). Por ser composta por vários tecidos e células diferentes, a casca apresenta funções de armazenamento de compostos orgânicos e água, cicatrização de ferimentos, proteção contra herbívoros, patógenos e fatores ambientais como irradiação, dessecação e fogo (Leite e Pereira, 2017).

Figura 1. Desenho esquemático de uma seção transversal de um tronco de árvore mostrando (A) o xilema (madeira), o floema (funcional e não funcional) e a periderme e (B) o xilema (madeira), o floema (funcional e não funcional), a periderme e o ritidoma com sucessivas camadas de peridermes intercaladas no floema secundário. Fonte: [Adaptado de Şen et al. (2015) e extraído de Leite e Pereira (2017)].


Retirada da cortiça do caule

A espécie Quercus suber se destaca por seu potencial de produção e qualidade da cortiça (fig. 2A). Esta espécie forma somente periderme (sem formação de ritidoma) (fig. 1A), a qual é retirada pela primeira vez em torno de vinte e cinco anos de vida da planta. As próximas retiradas são realizadas com intervalos de nove anos, sendo que a espécie pode viver duzentos anos ou mais. Na primeira retirada, a cortiça virgem apresenta numerosas e profundas fissuras que ocorrem longitudinalmente devido a tensão tangencial característica de crescimento de árvores jovens.

Após a retirada, devido a injúria ou trauma, um segundo felogênio é originado rapidamente formando a segunda periderme do floema secundário inativo. Após nove anos, a retirada é realizada novamente, sendo chamada de cortiça secundária ou de reprodução. Esta cortiça apresenta fissuras mais suaves, entretanto, a cortiça da primeira e da segunda retirada não apresentam boa qualidade, são trituradas para formação de aglomerados que são utilizados para outras finalidades industriais. Somente a partir da terceira coleta que a cortiça se torna mais homogênea, de espessura adequada e de boa qualidade para formação de rolhas e discos (Oliveira e Costa, 2012).

Espécies potenciais para produção de cortiça como Quercus cerris e Betula pendula estão sendo estudadas (Leite e Pereira, 2017). Estas formam ritidoma (peridermes intercaladas no floema inativo) em seus caules (fig. 1B). Os tecidos são triturados e a cortiça é fracionada para obtenção de grânulos, os quais são aglomerados com auxílio de cola para elaboração de matéria prima.

O manejo do Sobreiro é realizado de forma sustentável e a retirada da cortiça precisa ser realizada de forma correta para não prejudicar a planta. A cortiça é colhida entre maio e agosto, quando o felogênio está fisiologicamente ativo e em máxima atividade, as células recém-formadas têm paredes finas, o que permite a separação da cortiça dos tecidos subjacentes com facilidade.


Confecção de rolhas

Três tipos de rolhas são confeccionadas a partir da cortiça de acordo com a textura, homogeneidade e espessura do tecido (Adega, 2016) (fig. 2B). Rolhas maciças (a) são mais longas, elásticas e de elevada qualidade e durabilidade. Rolhas de aglomerados de cortiça (b), são formadas com as sobras trituradas da rolhas maciças, as quais apresentam menor durabilidade e elasticidade. O terceiro tipo são as rolhas tipo cogumelo (c), típicas de espumantes e champagne. A parte superior é composta por aglomerado de cortiça bastante rígida e sem elasticidade, que permite segurar e sacar a rolha com as mãos e a parte inferior maciça e elástica para vedar a garrafa e proteger a bebida.

Especialistas em vinhos relacionam a qualidade, a conservação e a manutenção das características de aromas e sabor do vinho a qualidade da cortiça da rolha.

Figura 2: (A) Retirada da cortiça do Sobreiro, Portugal. Fonte: adaptado de https://empratado.com.br/. (B) Tipos de rolhas de cortiça: maciças (a), aglomeradas (b) e formato cogumelo (c). Fonte: Tessmer, M.A.


Referências

LEITE, C.; PEREIRA, H. Cork-Containing Barks - A Review. Frontiers and Materials, v. 3, n. 63. p. 1-19, 2017.

Oliveira, G.; Costa, A. How resilient is Quercus suber L. to cork harvesting? A review and identification of knowledge gaps, Forest Ecology and Management, v. 270, p. 257–272, 2012.

ADEGA. Qual o melhor tipo de rolha? Disponível em: https://revistaadega.uol.com.br/artigo/qual-o-melhor-tipo-de-rolha_306.html > Acesso em: 22 de dez de 2019.


Texto escrito por Magda Andréia Tessmer


#quercus #sobreiro #cortica #felogenio #periderme #ritidoma #casca #floemasecundario #xilemasecundario #rolha #vinho

363 visualizações
 

Formulário de Inscrição

  • Instagram
  • Facebook
  • LinkedIn

©2019 por PlantaconsCiência. Orgulhosamente criado com Wix.com